quarta-feira, 18 de março de 2009

somos

somos
fugazes nuvens
em desvairados devaneios
de sol e mar

somos
errantes vagabundos
em descoberta pulsante
de mapas por traçar

somos
rios de palavras
suaves e roucas
colhidas, num desejar

somos
a dor da distância
tecida na partida
quebrada num voltar

somos
uma das formas
singelas e parcas
do verbo
amar

ruisantos

quinta-feira, 12 de março de 2009

rugas

nas rugas e asprezas
talham-se pedaços de saber
são cicatrizes compradas
que a vida quer vender

rs

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

soprando amarras


que é feito?
de mim
e das certezas inúteis que me saciam

que é feito?
dos doces recantos
barrados em sorrisos aparentes
expectantes nos vazios de silêncio

que é feito?
do conforto conformado
na contrariedade assumida
fluindo, na mestice de dias pares
já roído pelas cãs de surdos anos

que é feito?
de quem fui
jovem inebriado, riso rasgado
simples, ousado
liso de medos, nas vitórias por vencer

nas dores, paridas de sonhos
semeei novelos de ilusões
descalças
ásperas, cortantes
que me deram?
marés de vazios
sorvedoras de gotas matinais
pequenos nadas, gritantes
coados, pela brisa do ocaso

fui
porto de abrigo
seguro e seco
letras de palavras
roucas de loucas
muralha serena
tecendo a vida

vida
trocada por vida
trocada por tudo
trocada por nada

tenho
chão por cama
saco por mesa
tenho mais
tenho a certeza

certeza
de te ter, sem ter
de sentir, sem te ver
és
a luz, no espaço
um sorriso, um abraço
a paz, emoção
o desejo de ser
um momento sem tempo
a arder, no chão

pensamentos singelos
soltam-se
em tarde fácil
sopram suaves segredos
desnudam
pedaços de alma


ruisantos

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

excessos

sentes
em derrames de ousadia
sorves dias excessivos
permutas saberes de sabores
em cambiantes de sal e riso

soltas
ígneas panóplias sussurrantes
de leves ânsias incontidas
espraiam sentidos silibantes
em esparsas praias perdidas

és
doce tentação
viagem alucinante
momento de mar
lanças sedução
no vento abrasante
liberto, e por soltar

ruisantos

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

quando

quando
as pontas dos dedos
queimam segredos
e um simples olhar
embala a razão
troca-se o espaço
pelo tempo no chão

soltam-se telas
loucas de belas
e o tempo, torna curto
o dia diminuto
adormecido, com elas

momentos de dedos
lançados ao ar
tecendo enredos
em noites de mar
já vestem saudades
em doce bolinar

ruisantos

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

mudos sentires

Há sempre sentires que nos deixam sem palavras
Assim despidos e desarmados
Sem qualquer alma para esgrimarmos na vida
Reféns absolutos dos nossos sentimentos
Sem palavras que os traduzam
Tal como o mudo que não tem como comunicar
Fica no peito este peso
Na cabeça esta sensação aérea
Como se presos e amarrados nos encontrassemos

Um grito!! Dai por mim um longo uivo de angústia

MP

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

apenas dedos

com as pontas dos dedos
toco no olhar
de quem se deixa tocar

com as pontas dos dedos
desfaço segredos
nunca guardados

com a ponta dos dedos
soltam-se os dedos
e dás-me a mão

com as pontas dos dedos
comemos serenos
pedaços de chão

ruisantos

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

palavras

palavras são pontes
que a lingua entrelaça
num contínuo
reinventar

bem leves e serenas,
unem margens de fogo
nesse novo linguajar

rs

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

liberdade

liberdade

uma paz
um poema
um momento
sem tema
um sonho azul

um dia
rasgado ao tempo
uma voz que dá alento
a vida a viver
em ti

rs

vem

sonho nocturno
vida por abrir
doce mistério
cor por sentir

sente o sonho
marca passagem
solta-se a dor
quebra-se a margem

vem o dia
renova o olhar
vem também
não pares de sonhar

ruisantos

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

caminhos

um caminho
uma escolha
um nada que se perde
uma dor que se molha

um viver carmim
uma certeza tonta
um passo hesitante
uma onda redonda

tudo são caminhos
repartidos ou a sós
uns, dependem da vida
outros, de nós

ruisantos

sábado, 17 de janeiro de 2009

horizontes

em horizontes navegados
toco palavras inebriadas
de doces desejos pensados

soltam-se eternos segredos
lendo rumos sem medo
ousados por encontrar

pergunto ainda à vida
que mais serei de ti?
que tens para me dar?

um doce sabor no vento
deitado num relento
em horizontes
por navegar

ruisantos

uma vela

uma vela
ilumina uma casa

um sonho
uma estrada

um desejo
galga pontes

um beijo
as edifica

um momento
uma canção

um raio de luz
uma vela

e a vida
se ilumina

com ela

ruisantos

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

assim

vivendo
sentindo
correndo
negando
sim, não
lampejo de fúria
encosto macio
continuidade inerte
sentindo
vivendo
sou
assim

rs

simples palavras



Que mais te posso dar
Além destas palavras
Que sem medo, escrevo em ti
Que mais te posso dar
Além deste murmúrio
Que em segredo, grita por ti
Palavras singelas e tolas
Como tolo, é sempre o amor
Rimas e trovas que rolam
Em manhãs parcas de cor

Não faço poemas a metro
Nem amo por encomenda
Recuso viver na razão
De dias frágeis, para venda
Perto, longe, incerto
Sem saber por onde vou
Venço os laços do medo
Na busca de quem me dou

Que mais te posso dar
Senão este pensamento
Serás sempre parte de mim
Que mais te posso dar
Além desta ternura
Que em beijos quentes, corre de mim
Pensares soltos ao vento
Como solto sempre é o amor
Sem dia, nem hora, incerto
Roubando os dias à dor

Alma gémea, alma gémea
O teu sonho é igual ao meu
Perdidos em terras distantes
Quebramos pedaços de céu
Ousamos ir mais longe
Sem nada para trocar
Apenas simples palavras
Simples, como o verbo amar


RuiSantos

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

desafios

se fizeres um poema
com o sol e com a chuva

se deixares o coração dançar
em cada batida sincopada

se renovares as águas
barrentas, idas da memória

se romperes os diques
austeros de papel
que te seguram
nas orlas da dúvida

se o sol for o teu olhar
e a chuva
um mar por navegar
sem portos por aportar

sim
serás um arco-íris
em cores vibrantes
a florir
em ti

rui santos

verso

uni verso
é a palavra una
da palavra nasce o ser
para o uni verso retornas
por vezes sem saber
quantas vezes te perguntas
quanto tempo tens para ver
se o uni verso és tu
ou uma palavra qualquer

rs

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Se


E se eu te beijasse, ter-me-ias como atrevida? Devolverias o meu beijo com o mesmo fulgor e desejo?
Por vezes penso e sonho , mas sei que os sonhos são para afastar e sou bem crescidinha para que o possa de facto fazer. No entanto, outras vezes permito-me ir ao sabor da corrente, deixar iludir-me com algo arrebatador e delicioso. Aqui nada é tranquilo, havendo sempre esse elemento de entusiasmo e desejo tão característico da juventude, tão deslocado e impróprio no contexto, tão arriscado no sentir, sempre conducente à imprudência e vítima dos impulsos mais primitivos.
Pois assim sendo, sei que me terás nos teus braços, talvez em breve, talvez mais tarde, mas certamente. Sei que te envolverei num abraço forte que me faça perder em ti, deixando por momentos de ser eu própria para poder ser um pequeno pedaço de ti.
Tenho disso a certeza pois é esse o meu desejo mais intenso, pois é essa a minha perdição. Sentir o teu corpo junto ao meu, cobrir-te de beijos e carícias proibidas, deixando o tempo passar sem dele dar conta. Deixando o mundo girar enquanto me envolvo no calor dos teus braços, sem pressa, sem pressão. O total abandono do desejo de ser possuída, de me deixar encantar com o fruto proibido permanece forte e descontrolado apesar do meu bom-senso me ditar o contrário.
Que será isto? Uma paixão certamente. Arrebatadora e mórbida para ser vivida com a rapidez e intensidade próprias das paixões, sem olhar para trás nem tão pouco para a frente.
Por vezes penso, procurando entender como e porque aconteceu tudo isto. A resposta é sempre a mesma...não consigo entender, não há lógica nem sentido. E eu com tão mau feitio, tão inacessível na maioria das situações, tão escorregadia sempre que surgem situações vagamente semelhantes.
Pois assim se diz que a primeira vez é do acaso, a segunda da oportunidade, mas...e as seguintes? E depois? Bem, na realidade depois pouco me interessa, pois sei que as paixões tal como surgem, também morrem, consumidas talvez pela chama intensa que as alimenta. Cabe-nos portanto, vivê-las intensamente devido à sua natureza efémera e a sua raridade.
E então se eu te beijasse e o rosto te afagasse? Se pegasse nas tuas mãos e as conduzisse pelo meu corpo até chegarem à minha alma? Saberias tu aceitar a intensidade das minhas carícias?

MP

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

conversas


- que fazes?
- nada, estou enrolado em pensamentos.
- sim? Em que pensas?
- coisas…
- já vi que não estás falador. Chateado?
- não. Não se passa nada, apenas estou cansado de viver sem saber bem para onde vou.
- como não sabes? Tu que és seguro e tens resposta para tudo... Como não sabes?
- não sei nada. As nossas conversas levam-nos sempre ao mesmo ponto de partida. Sabemos dar conselhos, mas para nós, a insegurança é constante.
- o que te preocupa? Já sei, estás com saudades de casa, é isso?
- não posso negar algumas. Tenho saudades de um lar, uma família, uma partilha de sonhos e afazeres.
- tens amigos. podem ajudar a passar a solidão.
- eu sei
- é mais simples ter um amigo que ter uma relação. È aborrecido ter de dar explicações sobre o que se faz, onde foi, com quem foi, etc…é um adeus á liberdade, e depois, acabam sempre mal. Com uma traição. Não, não me voltam a apanhar nessa esparrela.
- tolice. Os amigos não substituem o amor, se bem que sejam o nosso apoio, quando tudo cai. Nem sei como seria viver sem amigos.
- sim, são mais generosos e dedicados. A amizade dura para sempre. È menos complicada. Se estiver um dia sem te falar, não há problema por isso, se for a tua namorada que passe o dia sem te dirigir palavra, começas a pensar que algo está mal.
- e não é para pensar? Quando se gosta, as palavras são poucas e o tempo escasso. Cada momento esquecido, é um momento perdido.
-è desse sufoco que não gosto. Prefiro a amizade, é menos complicada e mais segura.
- deixa-te de desculpas, o que tens, é medo. Medo de assumires uma relação. Medo que ela acabe. Medo de sofrer.
- sim, tenho medo. Não quero sofrer mais, com nenhuma decepção. Já bastam as que a vida me deu. Todos os sonhos foram levados numa vida de sofrer. Não, não vou voltar a passar pelo mesmo.
- acabamos por voltar sempre á mesma conversa. Tanto me dizes que queres viver o que a vida te deve, como recuas para o teu canto e te fechas em gavetas de sentimentos.
- já me conheces, sabes o que quero e o me que me assusta. Na verdade… não sei o que quero, nem o que fazer.
- o que queres é fácil de adivinhar. Ser feliz
- sim. Mas… como?
- vivendo
- è o que faço
- Se vives, porque te queixas?
- não comeces com essas perguntas, sabes que estou bem assim, e para mais, tenho a amizade que basta para preencher os momentos vazios.
- não. Não pode nem deve bastar. Tem de existir algo mais. Um brilho no olhar. Uma loucura que se faz, Um arrepio de saudade de um dia á beira-mar. Um local. Uma história partilhada. Mais tem de haver. Apenas a amizade não completa a vida.
- eu sei… mas gostar… dói. Não quero sofrer mais. Basta. Muda de conversa.
- está bem. Do que queres falar?
- dos teus pensamentos.
- que têm?
- deixam-te triste. Como amigo, tenho de te animar.
- não consegues, não é algo que a amizade resolva. Posso deitar a cabeça num
travesseiro para dormir . Mas é da almofada macia que preciso. De adormecer no calor partilhado. Acordar com quem amamos, é um momento sem palavras.
- és sempre o mesmo. Um poeta com palavras fáceis. Que te prende para seres feliz?
Tens quem goste de ti, porque esperas? Se não arriscares, perdes a oportunidade de vez
- argumentas com as minhas palavras?! Fazes me rir…
- comigo é diferente, eu não quero ninguém, estou muito bem assim no meu canto.
- faço de conta que acredito mas nem a ti te convences. Ou esqueces os desabafos em que te queixas dos gritos do silêncio?
-São momentos, em que me sinto só. Gostava de viver a vida que me foi negada. Tenho os meus dias, em que quase desejo ter alguém para partilhar a vida. Mas passa depressa.
- acabas por me dar razão, no fim de tudo.
- não. Sou um caso encerrado. Muda de assunto. Fala-me de ti.
- estou a desembrulhar pensamentos, nada de mais. O tempo passa e ainda tenho pontas por desatar.
- somos complicados. O melhor é beber um copo e não pensar muito no assunto.
- sim, mas antes, vou enviar mais uma mensagem, pode ser que ela responda ainda hoje.
- sempre o mesmo.
- nem sempre.
- já pensaste escrever sobre o assunto?
- já. Talvez um dia o faça, quando souber o que dizer.
- que título vais dar?
- conversas.
- não escolhes nada melhor?

ruisantos

amor

o que se vê de olhos fechados,
o que se ouve num sussurro silíbante
o que se veste
num roçar desabrido
é amor
inconformado, renitente
invadindo cada pedaço
incauto de vida

rs