sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Pela Frescura da Manhã




J,

Tenho andado por aí, fazendo a vida rotineira até que ontem saí de casa logo pela manhã e deparei-me com um dia soalheiro e um céu azul, daqueles que parecem estar mais distantes da terra do que é habitual. A ventania da noite havia já acalmado. Sentei-me na esplanada e pedi o costumeiro café e uma água tónica, um vício recente, não passando de mais um daqueles meus fervores passageiros que tão bem conheces.
Foi então que me apercebi que estava só... Sózinha na esplanada e na rua inteira, pois nem um carro esporádico passava. Não posso precisar ao certo quanto tempo desta serenidade passou, talvez quinze minutos ou meia hora, os quais sorvi com uma intensidade e bem-estar que já há muito não sentia. O sol, a frescura da manhã, o silêncio e a acalmia pareceram perdurar por mais tempo, bastando para carregar as minhas baterias para todo o dia.
É sempre curioso que seja em momentos como estes que invades o meu ser. Sinto a delícia de partilhar contigo este silêncio e esta paz, ambos sentados na esplanada com as cadeiras bem juntas, olhando em frente para um ponto inexistente. Quem passa por nós pensa que estamos zangados, sem falar, sem nos tocarmos nem sequer trocar um olhar que seja, porém escapa-lhes a nossa descarada cumplicidade silenciosa e secreta. Depois aquela troca de olhares, sinal para que ambos nos levantemos da mesa em silêncio, seguindo um caminho que apenas nós sabemos onde nos levará.
Nunca coloco alternativa senão seguir os teus passos e caminhar a teu lado, até entrar para o carro e fechar a porta. Aí o mundo torna-se subitamente pequeno e acolhedor, parecendo que só nós existimos e nada mais nos preenche a memória. São os nossos preciosos momentos, roubados à vida e saboreados lentamente . Trocamos olhares e inclinamos a cabeça um para o outro, de uma forma natural, fechando os olhos para trocar pequenos beijos provocadores, dados e recebidos em lábios húmidos e frescos, dizendo sempre muito mais do que palavras.
Pões o carro a trabalhar e ambos colocamos os óculos escuros, protegendo assim a vista do brilho intenso do sol sobre o mar. É quase sempre para o mar que nos dirigimos, não é? Ambos necessitados da sua vastidão e sensação de liberdade.
Gostaria sempre de passar mais tempo contigo, mas sei que é impossível, pois os nossos escassos momentos são já roubados e a nossa relação sempre foi baseada nesta premissa. Representaremos sempre um para o outro, os momentos de desejo, cumplicidade e afecto sem qualquer cobrança mútua, aceitando aquilo que cada um tem e pode dar de si próprio. Apenas aquilo que cada um de nós é, e não aquilo que poderiamos ou desejariamos ser.
Hoje desejei estar contigo e paradoxalmente, assim o fiz, para tal bastando fechar os olhos e sentir o calor do sol na frescura da manhã. Sinto que também pensaste em mim, pois eu senti-te com toda intensidade.


M P

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